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Definindo as Patricinhas

 

De um apelido despretensioso surgido nos anos 1990 ao caráter de “insulto” que foi adquirindo com o passar do tempo, o termo “Patricinha” é amplo em significados e, como categoria do senso comum, parece designar um target de consumo entre as adolescentes brasileiras.



No popular, “Patricinhas” são meninas ricas (ou nem tanto), com cabelos sempre escovados, roupas e acessórios da moda, que cultivam a boa aparência e a forma física, gostam de grifes, são esnobes, frescas, “caretas”, críticas, consumistas e fúteis.

De acordo com a antropóloga Cláudia Pereira, que pesquisou o assunto para o estudo “Patricinhas da Zona Sul: adolescência nas camadas médias cariocas”, as “Patricinhas” são adolescentes ou jovens que, nessa fase liminar entre a infância e a vida adulta, se comportam e se vestem de forma a se sentirem inseridas em um grupo, a sua “tribo”, e a se distinguirem na cena social, adotando modas, modos e estilos de vida percebidos como distintivos.

Para ajudar a compreender quem são, como são vistas e se auto-percebem, como se comportam em termos de consumo e o que pensam as chamadas “patricinhas”, confiram a entrevista feita com Cláudia Pereira, que é Mestre e Doutora em Antropologia Cultural pelo PPGSA (IFCS/UFRJ) e professora do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.



Cláudia, quem são as “Patricinhas”?
CP: “Patricinhas” são todas as mulheres que se preocupam em manter uma aparência física impecável, dentro de um padrão de moda mais comportado. Portanto, não se espera que uma “patricinha” seja transgressora, use roupas ou acessórios que possam colocar em dúvida o seu “bom gosto”. As “patricinhas”, na verdade, gostam de impressionar pela harmonia e perfeição dos elementos que compõem a sua aparência física – cabelos, maquiagem, corpo, roupas e acessórios -, mas sem chamar a atenção.

De onde vem esse termo?
CP: Segundo dados coletados em minha pesquisa, a expressão “patricinha” foi cunhada pelo colunista Zózimo Barrozo do Amaral, em 1991, quando fez referência à matéria de capa da primeira edição da revista Veja Rio. Esta matéria falava sobre as novas socialites cariocas, dando destaque para Patrícia Leal, jovem empresária na época. Neste texto, não há qualquer referência às “patricinhas”, mas a moças de boa família, comportadas, sem vícios, ricas e proeminentes na sociedade carioca. Zózimo, então, escreveu que, depois dos “mauricinhos”, a Veja Rio inventada as “patricinhas”. Logo em seguida, é lançado o filme "Clueless", cujo título foi traduzido para “Patricinhas de Beverly Hills”. Distribuído para todo o país, o filme passou a representar as adolescentes e jovens que tinham, ou desejavam ter, um estilo de vida parecido com aquele retratado pelo filme, das rich girls norte-americanas. A partir daí, o termo “patricinha”, simplificado mais tarde para “paty”, ganhou novos significados, chegando a ser uma categoria de acusação entre as adolescentes.


O que é ser “Patricinha”?
CP: Em minha pesquisa, faço uma distinção entre as idéias de “ser patricinha” e “parecer patricinha”. Especialmente entre as adolescentes cariocas, meninas de 14 a 19 anos que entrevistei, a gíria assume um papel de categoria de acusação e serve à função de controle social. Mas há nuances na forma como é usada. “Ser patricinha”, entre os adolescentes, tem valores negativos: é ser “metida”, “consumista”, “burra”, “alienada”, “preconceituosas”, entre outras expressões igualmente pouco elogiosas. Por outro lado, as mesmas adolescentes que usam estas definições afirmam que podem “parecer patricinhas” em algumas ocasiões, especialmente aquelas em que precisam se apresentar mais “arrumadinhas”. Neste caso, “parecer patricinha” é “parecer arrumadinha”, o que pode ser muito conveniente para algumas festas, boates ou encontros, facilitando sua inserção no grupo ao qual pretendem pertencer. No fundo, o que determina a ambivalência do termo “patricinha” é o desejo de sociabilidade. Uma adolescente que “é patricinha” não se mistura, não tem amigos que possam pôr em risco o seu “bom gosto”; uma adolescente que “parece patricinha”, mas não é, valoriza sua aparência para poder se integrar a um ou mais grupos sociais.

Que hábitos de consumo caracterizam as “patricinhas”?
CP: Se considerarmos as “patricinhas legítimas” – há uma classificação na noção de “patricinha” –, o modelo típico ideal refere-se àquelas mulheres, de qualquer idade, que escolhem o mainstream da moda, pagando caro por ele. São as consumidoras de grifes, especialmente. Agora, se pensarmos nas “patricinhas” que não são ricas, encontramos as consumidoras de marcas alternativas, mais baratas, mas que causam os mesmos efeitos que as grifes. Além disso, há o cuidado com os cabelos, que nunca podem estar desalinhados – em geral são lisos e longos – e com o corpo em geral, o que leva ao consumo de maquiagem, cremes e outros produtos que tratam da beleza.


Há o equivalente masculino das “patricinhas”?
CP: É interessante constatar que as gírias se renovam. Se hoje usamos a expressão “patricinha” para descrever alguém, na década de 70, usávamos “cocota”; nos anos 80, talvez não com o mesmo sentido, “perua”; também encontramos equivalentes masculinos nos anos 60 e 70, com os “playboys”, ganhando novos sentidos depois, ou “mauricinho”, nos anos 90.

Qual foi a principal descoberta da sua pesquisa?
CP: A adolescência é um momento em que valores ambíguos convivem em harmonia. Entre eles, a sociabilidade se mostrou o principal valor da adolescência. Sem ela, os adolescentes não conseguem construir suas identidades, consequentemente, não conseguem se sentir parte do mundo. O controle social entre pares é o contraponto da sociabilidade, o que ficou bem claro durante a pesquisa. Se, por um lado, se consegue prestígio através de uma grande rede de relacionamentos, o que é facilitado para quem transita entre diversos grupos, por outro, há que se manter alerta para algumas normas sociais importantes. As “patricinhas” caminham contra a corrente do que é ser adolescente, já que sintetizam a imagem da menina comportada, totalmente integrada aos valores convencionais de um mundo adulto e, ainda por cima, nada tolerante com relação a outros estilos de vida. Mas, se há um valor positivo, externado por minhas entrevistadas, naquilo que representam as “patricinhas”, é justamente a atenção dedicada à aparência física. Estar sempre bonita é um passo para se ganhar novos amigos.

Por: Marcelo Ramos (SENAI Cetiqt - Comportamento)

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